27 de maio de 2009

Para casais

Texto retirado da entrevista publicada no Jornal do Brasil com o escritor e rabino Nilton Bonder. Bem interessante!

Paixão, amor, casamento, separação, fidelidade, ciúmes...

Nilton defende que a natureza humana é transgressora. Diz que há implantado no ser humano um desejo tão profundo de se superar e transcender, como o de procriar. Estas seriam as duas grandes diretrizes humanas - perpetuar-se e trair-se. A idéia de traição é usada não no sentido da falta de honestidade, mas do desejo de rompimento para que novas possibilidades de vida possam aflorar.

Entrevista

- O que faz uma pessoa se apaixonar por outra? - O que nos apaixona é uma medida de equilíbrio entre estímulos biológicos, psíquicos e culturais. O que nos leva à paixão é a sensação existencial de termos encontrado a pessoa que nos permitirá a realização dos mais importantes desígnios da vida. Há muito de biológico e espiritual no que normalmente entendemos apenas como uma emoção.

- Por que quase todas as pessoas desejam casar? - Os seres humanos têm como mandamento maior a procriação. Este é um entendimento que une tanto ciência como religião. A psicologia evolucionista iniciada por Darwin e o relato bíblico sobre Adão e Eva nos mostram que o mandamento maior de um ser vivo é multiplicar-se. Esta é uma questão de nossa espécie. Nascemos para amadurecer até a idade de sermos férteis para procriar e depois de terminada esta etapa nosso corpo é lentamente descartado. O casamento é, portanto, o cumprimento de um mandamento muito profundo em nós. Não é moralismo, mas biologia e vida. As pessoas se casam para cumprir este mandamento maior da existência.

- Por que, atualmente, existe tanta separação? - Não é casar que esta em crise, mas o tipo de casamento que praticamos. Estamos vivendo transformações muito profundas na civilização. Por um lado "multiplicar-se" num mundo de super-população pode ser um atentado à própria vida; por outro, "para toda a vida" com a expansão de nossa longevidade, pode ser muito tempo. Estamos vendo lentamente surgir uma nova moral que não exige "até que a morte os separe" ou que não entende sobreviver apenas por "multiplicar-se". Saímos dos modelos da poligamia e monogamia voltados para a sobrevivência pela procriação e entramos na era da monotonia. Muitas pessoas se separam porque casaram-se com uma concepção da moral e descobrem lentamente que esta não dá conta de seus anseios e necessidades. O eixo do casamento vem se tornando mais o próprio indivíduo com sua necessidade de afeto e troca do que o próprio conceito de família. Isto é complicado e obviamente apresenta perigos. Mas sobreviver neste mundo de hoje talvez dependa mais de não deprimirmos, de não
vivermos hipocrisias, de mais entrega e de mais troca do que simplesmente garantirmos mecanismos de "multiplicação".

- Por que as pessoas exigem fidelidade no amor? - Acho que a questão da fidelidade está muito ligada à questão da rejeição. Nenhum ser humano gosta de ser rejeitado e é muitas vezes isto que experimentamos nas situações de infidelidade. A dor daqueles que são traídos é muitas vezes um luto insuportável. É a morte de si mesmo. Mas a fidelidade é em grande medida uma questão cultural. Nossa civilização criou critérios morais de conduta que têm ou tiveram a intenção de proporcionar as melhores condições de paz social. A fidelidade tornou-se um importante mecanismo de convivência. E as sociedades estipulam propositalmente que um homem ou uma mulher só deve ser respeitado na medida em que tem seu parceiro amoroso sob controle. A infidelidade se torna uma prova de fracasso social e é coibida não só na reprovação ao infiel, como pela vergonha aplicada ao traído. Existem culturas (e certamente outras espécies) onde a fidelidade não é uma questão prioritária. É óbvio que não estamos falando dos atos de deslealdade ou de malícia que são, por definição, atos de violência e agressão.

- É possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? - Não é possível estar apaixonado por duas pessoas ao mesmo tempo. A paixão é um sentimento absoluto de entrega e não comporta mais do que um protagonista. O amor, por sua vez, é um sentimento menos obsessivo que a paixão. Acredito que todo casamento ou relação duradoura deve ser composto de amor e surtos de paixão. Sem estes "surtos" o amor se torna um sentimento difuso no que diz respeito à exclusividade. Isto porque é possível amar não só duas, mas dez ou todas as pessoas deste planeta. Todo o casal que não sente estes surtos de paixão de tanto em tanto, em meio ao cotidiano, que é em grande parte preenchido apenas por momentos de ternura e companheirismo, perde a condição de exclusivismo. Entenda-se que não é necessário ser adúltero para, mesmo assim, ser infiel.

- Você acha que o casamento vai continuar existindo no século XXI?
Como vai ser? - Acho que vai. Temos necessidades tanto de estruturas familiares como também da profundidade de relações que advém do compromisso. Aliás isto é importante: seres humanos não detestam compromissos, muito pelo contrário. A vida sem compromissos verdadeiros nos carrega à depressão e ao desânimo. Acho que continuará a existir uma cerimônia de casamento como a de hoje: rituais não estão perdendo a força, e a função de tornar público o status de uma relação também continua existindo. A médio e longo prazo, no entanto, acredito que as relações humanas serão drasticamente modificadas pelas condições de vida e sobrevivência no planeta. Foram elas sempre que construíram as convenções sociais.

- O que você acha do ciúme? Faz parte do amor? - Acho que sim. Sentir ciúmes pode ser uma emoção bastante saudável. Serve como um sinal de que valorizamos nossa relação com o outro. Pode dar colorido e enriquecer uma relação. Se, no entanto, o que estiver promovendo o ciúme é a baixa auto-estima, então a situação se reverte. Não há nada mais sufocante do que a insegurança de alguém que aposta no controle do outro ao invés de lidar com as suas questões.

- Que conselhos você daria para uma pessoa que acabou de se separar?
- Primeiramente honrar seu luto. A separação traz sempre sentimentos muito difíceis e coloca a complexa questão de quanto romper e quanto preservar. Na separação com filhos, além da generosidade que deve existir na resolução das pendências materiais, cabe compreender que um homem ou uma mulher que se separam nestas condições terão que preservar certos níveis de relação. Ninguém com filhos se separa totalmente do passado e aceitar isto é ser "gente". Uma vez acertada a vida e as responsabilidades com o passado, surgem as com o futuro. Acho que se deve ter fé de que a vida nos surpreenderá com a paixão novamente. Muitas vezes o recém separado não crê nisto. Uma das alegrias mais bonitas é resultante desta surpresa.

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